sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

AMOR DA INTERNET


O baile de carnaval seria naquela sexta-feira, no Scala Rio, e Catarina não estava tão disposta para a diversão. Sua noite se resumiria num filme bem divertido, uma garrafa de vinho e um edredom aconchegante para finalizar aquele dia atribulado no escritório.
Mas, o som do seu telefone, que tocava sem parar, lhes convencia de que não seria bem assim. Vinte e sete ligações não atendidas; Milena, sua melhor amiga, não iria desistir de querer arrastá-la para o baile. E, Catarina tinha uma leve e boa sensação de que a sua noite começaria entre drinks e risos; não seria qualquer desculpa criativa que atravancaria o rumo do seu belo e cansativo dia.
Com a cabeça a mil para poder inventar qualquer desculpa para a amiga, ela se rendeu a insistência de Milena, que àquela altura já havia até conseguido as fantasias de ambas: uma da sensual e extravagante mulher gato, e a outra da doce e inocente Alice, do País das Maravilhas. Óbvio que a segunda opção se encaixava perfeitamente no perfil de Catarina, além disso, ela realmente necessitava de uma noite de maravilhas.
Lá estava Milena, pontualmente às 22 horas na porta do prédio de Catarina, a fim de que a amiga não burlasse a noite com um imprevisto sem nexo, só para não sair e se divertir. Pequena e feliz como se tivesse ganhado um prêmio por ter arrancado a amiga da rotina maçante, Milena esboçava um sorriso de orelha a orelha, lindamente trajada de mulher gato.
Naquela altura Catarina se sentia extremamente grata pela insistência da amiga, fazia tempo que ela não saia para se divertir e viver com mais leveza, sem reuniões e horários extenuantes no trabalho. Madura, beirando os 36 anos, Catarina era uma mulher linda e inteligente; gostava de cuidar do corpo e por ser sempre alegre e jovial atraia muitos olhares, mas desde a sua ultima relação ela optou por não se envolver com mais ninguém; rabiscou em negrito o lema de que todo mundo pode ser feliz sozinho e que paixões eram um risco alto demais para se correr tantas vezes. Casou nova, com seu primeiro namorado, mas o casamento durou apenas dois anos; imatura no que se refere ao amor, caiu de cabeça em algumas paixões que acabaram ralando seus joelhos, coração e alma. Mas, foi o seu último relacionamento que a deixou mais reclusa; um rapaz mais novo, que ela conheceu pela internet através de um grande amigo. Maurício era universitário, inteligente, cheio de sonhos, e deixou Catarina perdidamente apaixonada, como jamais ela havia se sentido desde o fim do seu casamento. Passaram cerca de um ano conversando para enfim engatarem um romance, que não durou muito, eles moravam tão distantes que isso foi visto como um grande obstáculo pelo moço.
Tantas vezes ela se perguntou se foi a pouca idade do rapaz, que a deixou instigada a ponto dela se sentir confortável e se entregar intensamente, já que a sua alma de menina se sobressaia. Mas, ela sabia que não era isso, ambos queriam as mesmas coisas, a harmonia no pensar, e a vontade exposta de se viver um grande amor eram recíproco. Infelizmente, não passaram de alguns beijos quentes, noites regadas de risos, abraços de paz; tudo isso não foi suficiente para prosseguirem e costurarem uma história juntos, a extensão territorial que os afastavam falou mais alto. 
Já fazia 3 anos que Catarina não tinha notícias do Maurício; sim, ela o tinha em suas redes sociais, mas, não fazia mais questão de saber onde ele estava e o que o moço fazia. Para se deixar para trás um sentimento bom, é preciso deixar de alimentá-lo. Uma hora ele morre. Foi o que ambos decidiram fazer.
Depois do Maurício, ela limitou-se a sua zona de conforto, até porque não tinha mais graça viver tantas paixões enlouquecidas a troco de nada; aquela adrenalina toda pra sentir frios na barriga, como se fosse uma droga necessária para viver, não era o que ela esperava. O amor tranquilo, sim, fazia parte da vontade de Catarina, e para isso, ela precisaria pensar mais nela do que nos outros; e quando alguém lhes tirasse para uma volta no jardim do amor, escolheria pelo racional, e não pelo que ela achava ser o certo. Tantas vezes ela achou que tinha que se entregar e só estraçalhou a alma. Ser racional era de bom senso e tamanho.
De uma forma ou de outra lá estava Catarina rindo muito com a amiga, dançando e deixando pra lá a sua rotina estafante. E, certamente o Scala Rio era o lugar ideal para uma bela diversão, ali acontecia, todos os anos, um dos bailes de carnaval mais tradicionais e renomados do Rio.
Vestida de Alice no País das Maravilhas, Catarina se sentia a oitava maravilha do mundo tamanha alegria compartilhava com sua amiga.
Ela podia sentir a música pulsando em suas veias, e aquela sensação a deixava mais solta e feliz no meio de tanta gente estranha. Pouco importava se ela parecia uma criança num parque de diversões. Pouco importava se era apenas ela e mais ninguém; porque naquela altura, Milena dançava com um rapaz no meio do salão.
De olhos fechados Catarina se entregava ao ritmo das marchinhas quando sentiu uma mão tocar a sua e puxá-la para perto, assustada, abriu os olhos que esbararam naqueles pequenos olhos castanhos, bem conhecidos; e neles ela conseguiu enxergar um riso doce, que a inebriava.
Seu coração bateu mais acelerado do que as batidas da marchinha que tocava. "Não podia ser... Fazia tempo demais". Lá estava Maurício, de barba rala, bem feita, sorriso largo, sussurrando um “- Catarina, quanto tempo? Meu Deus, não imaginei que te encontraria aqui”. Nem ela, tão pouco que sentiria aquela sensação avassaladora tomando conta do seu corpo. Algo extremamente descontrolado, que ela se convenceu, por algum tempo, de que havia morrido dentro dela. Mas, quem disse que amor morre? Ele cochila, hiberna, dorme, até a pessoa despertá-lo outra vez, ou não. E foi como acordar de um sono profundo.
- Passei tanto tempo pensando em você, do quanto poderíamos ter vivido uma história linda. Tínhamos compatibilidade, queríamos as mesmas coisas, eu só era muito imaturo, Catarina. Um menino. Tinha tantos medos e me arrependo de não ter sido o melhor pra você. Nossa! Me perdoa. Eu sofri com o fim da nossa relação. Encontrei algumas paixões, que quis me convencer de ser amor, mas nenhuma tentava me tornar melhor como você fez.
Catarina já não ouvia mais o que o Maurício dizia, em meio a tanto barulho, e ao som do seu coração, mas ela entendia o que os olhos daquele rapaz sussurravam.
Foi como se fosse a primeira vez, o primeiro encontro. Aquele beijo que eles se permitiram, era inigualável.

Tayane Sanschri

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